Porque vale a pena

 Algo de curioso aconteceu hoje na loja de Casa Forte. Uma cliente buscava produtos para comemorar a saída do seu bebê nascido prematuro da UTI. Era impossível não se contagiar com a satisfação da mãe, e a mim não se emocionar com um sentimento tão genuinamente materno.

 De dois anos para cá, assuntos relacionados a maternidade sempre me deixam balançado. Ainda falta habilidade para superar tudo que aconteceu em 2012. Talvez o mais adequado fosse jamais trazer um assunto tão delicado como esse para um blog que se propõe a falar sobre amenidades, mas foi quebrando uma série de regras que chegamos aqui. E esta não será a última.

 Foi neste ano que minha única irmã descobriu sua gravidez. Um susto. Era emoção demais para lidar e já fazia um tempo em que eu havia deixado de sentir (e expressar) muita coisa. O crescimento da Delikata teve seu preço e me pareceu naquele momento que toda a energia para expressão do amor que eu tinha havia sido depositado na empresa. Um grande erro.

ultrasonografia

Por pura covardia, não parabenizei minha irmã. Nem dei um forte abraço. Não fiz planos de encher meu sobrinho de mimos, de levá-lo ao parque e nem de ser chamado de tio. Seria estranho mostrar essa minha vulnerabilidade. Fiquei quieto. E isso foi o que mais doeu quando descobrimos que o bebê não poderia nascer. Mais ainda quando recebemos a sentença de que seria necessário esperar seu óbito para realizar o parto.

 Os meses que se seguiram foram de pura angústia e sofrimento para todos. Minha irmã passou por todos os estágios da gravidez: enjoos, desejos, dores de coluna, dificuldades de locomoção, perda de roupas, entre outros. Só havia o lado ruim da gravidez, porém com a certeza de que no final não haveria nada. Apenas dor.

 Quando aconteceu, confesso ter ficado aliviado. O parto foi espontâneo e sequer deu tempo do médico chegar ao quarto do hospital. Ela e meu cunhado tiveram/perderam seu primeiro filho ali, sozinhos. Até hoje isso me angustia e escrever sobre me traz uma sensação incômoda de impotência.

 Era o “ponto final” para aquele drama. Ou não.

 Quase um ano depois, recebo uma ligação. “ Neninho,  tenho algo para te falar”. Já sabia o que era. Não contive o choro. Uma nova gravidez! Se antes foi a falta de coragem que segurou minhas emoções, agora era a tensão e o medo que me tomava. Ela não poderia passar por tudo aquilo de novo. A gente não merecia.

 Durante os meses que se seguiram era aparente a tensão que rondava tudo que tinha relação com a gravidez. Chorei quando soube que era um menino. Choramos quando soube que estava tudo bem com ele. Chorei quando percebi que ela era a grávida mais linda do mundo.  Era fato: o meu eterno bebê ia ter outro bebê.

 No dia do parto estávamos todos lá. Era estranho experimentar aquela expectativa. Eu sentia como se tudo estivesse perfeito demais e prestes a desabar. Foi o dia mais tenso de toda a minha vida.

 Quando foram buscar ela no quarto para levar pra a sala de cirurgia, fiquei paralisado. TUDO passou pela minha cabeça num instante. Logo antes dela entrar no elevador, percebi que ainda havia uma oportunidade de corrigir um erro já cometido. Corri até ela e disse que a amava muito e que tudo ia dar certo. Foi um dos momentos mais libertadores pelo que já passei. Ali não importava quanto dinheiro eu tinha,  se a Delikata estava funcionando bem sem mim, ou se os outros estava me vendo frágil como papel. Ali era só eu e ela. Só eu, ela e meu sobrinho.

 Ele nasceu. Eram os “dois pontos” para todas as coisas boas que estavam por vir.

Parto-de-lucas

Quando vi Lucas, meu sobrinho, sendo trazido até o vidro do berçário… Minha nossa! Aquele sim foi o momento mais impactante e feliz de toda a minha vida. Poucas pessoas entenderam meu choro quase compulsivo, mas aquilo era muito forte. Era um novo capítulo.  Era 2,950kg da coisa mais fofa que eu já havia visto. Era o que nossa família precisava.

 E hoje, voltando para o que falei no início deste post, quando recebemos a cliente que queria comemorar a saída do seu bebê da UTI, pude reviver parte daquela emoção. Tive a certeza (por mais piegas que seja) de que quanto mais sentimentos bons houver em mim e em qualquer pessoa envolvida, mais humano será o nosso trabalho. E entre tantas coisas sem preço, a felicidade de uma mãe pela saúde do seu filho certamente é uma delas.

 Aprendi que nossas experiências pessoais enriquecem e humanizam nossa relação com os consumidores. Pode parecer estranho para muita gente e para alguns concorrentes, mas é muito mais gratificante quando é possível comemorar, honestamente, junto com nossos clientes. Faz tudo valer a pena.

Lucas

 Que assim seja o tempo que for necessário.

 Clayton Rodrigues

Sócio-diretor